Opinião

Comandante do Exército mandou recado à tropa ou ao presidente Bolsonaro?

Carlos Newton

Dentro de algumas décadas, quando os historiadores forem contar a verdade sobre o turbulento governo de Jair Bolsonaro, com toda certeza será exaltado o comportamento do Exército Brasileira na defesa da democracia. Na verdade, o atual presidente preparou o terreno de todas as maneiras para possibilitar um golpe militar. E fez tudo às claras, apregoando a todo momento sua posição de comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Para conquistar o apoio dos militares, Bolsonaro concedeu-lhes todas vantagens possíveis e imagináveis. Enquanto o país vivia – e ainda vive – uma gravíssima crise econômica, as Forças Armadas foram prestigiadas e se transformaram em exceção. Como dizia Vinicius de Moraes, que maravilha viver!

ESTRATÉGIA QUASE PERFEITA– Ao mesmo tempo, o presidente Bolsonaro abriu o governo e preencheu mais de 6 mil cargos com militares da ativa e da reserva. Era uma estratégia que parecia perfeita, até porque Bolsonaro teve a preocupação de se cacifar junto ao Alto Comando do Exército, que na defesa da democracia funciona como uma espécie de poder moderador informal, dentro das quatro linhas do artigo 142.

Para tanto, nomeou como ministros dois comandantes do Alto Comando, os generais da ativa Luiz Eduardo Ramos e Walter Braga Netto.

Executado às claras, o plano enfrentou resistências. Em 30 de março, véspera do aniversário do golpe de 1964, Bolsonaro resolveu bancar o comandante-em-chefe e demitiu, a um só tempo, o ministro da Defesa e os três comandantes militares, trocando-os por oficiais superiores que julgou mais aderentes ao comando do agora ministro Braga Netto.

ATÉ AGOSTO – Tudo ia bem até 10 de agosto (mês do cachorro doido, como se diz em política), quando Bolsonaro mostrou que ia partir para o tudo ou nada, ao promover o fumaçento desfile de tanques e blindados diante do Planalto e convocar para setembro as enormes manifestações que lhe dariam apoio popular.

A preparação do golpe foi num crescendo, e no sábado, 14 de agosto, quatro dias após o desfile dos tanques, o ministro da Defesa, Braga Netto, numa cerimônia militar, afirmou que as Forças Armadas são “protagonistas dos principais momentos da História do País” e estão “sob autoridade suprema do presidente da República”.

Em tradução simultânea, ele ameaçou: “Se não nos obedecerem, daremos o golpe”. Mas esqueceu de combinar com a peça-chave nesse xadrez político-militar – o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira.

NO DIA SEGUINTE – Não foi por coincidência que no dia seguinte, domingo, 15 de agosto, o jornal O Globo publicou uma matéria importantíssima, que trazia apenas duas frases do comandante do Exército. Disse o general Nogueira: “Não há interferência política no Exército. O Alto Comando está com o comandante”.

Na empolgação do momento, Bolsonaro e Braga Netto não levaram fé na palavra do comandante. Engrossaram a convocação para o Sete de Setembro com empresários e seguiram em frente. Com apoio de transportadoras e de alguns caminhoneiros autônomos, a segunda parte do plano era gerar caos e desabastecimento, para justificar o artigo 142, dentro das quatro linhas.

A surpresa foi Bolsonaro ter recebido o “tranco” do Alto Comando do Exército, que mandou o governo retirar imediatamente os caminhoneiros e reabrir as estradas.

NO DESESPERO – Bolsonaro e Braga Netto tiveram de obedecer à ordem. No desespero, com medo de ser derrubado, o presidente então mandou buscar Michel Temer de jatinho e pediu arreglo ao ministro Alexandre de Moraes, que o ouviu respeitosamente, mas “não cedeu um milímetro”, segundo relato do ex-presidente.

Neste sábado, dia 18, a estocada final. Num vídeo de oito minutos, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Oliveira, enviou uma mensagem para os 220 mil militares, no qual alerta a tropa para cuidados com as fake news nas redes sociais e reforça o compromisso de hierarquia e disciplina.

“Muita cautela com o que circula nas mídias sociais. Analise com critério e faça a correta interpretação do que acessam ou recebem, mas principalmente confiem ainda mais nos seus comandantes e chefes em todos os escalões hierárquicos. Eles estão investidos de autoridade e responsabilidade para transferir a vocês a leitura mais profissional e ética dos acontecimentos. Além de orientá-los no correto caminho a seguir”.

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