Opinião

Caso Master: A arte de tentar se dar bem mesmo sendo culpado

Por Fabiano Lana


O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em seu livro “A arte de ter razão”, que aqui recebeu o subtítulo de “como vencer um debate sem precisar ter razão”, está na moda no Brasil — mesmo que ninguém saiba disso. Várias estratégias que o pensador colocou em seu curto ensaio têm sido bastante utilizadas por todos os envolvidos no caso Master. Sobretudo para poupar o ministro Alexandre de Moraes de uma investigação que traga conclusões sobre seu envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O candidato à presidência Flávio Bolsonaro também, sem o saber, utiliza-se das mesmas técnicas, assim como todos que estão envolvidos.
Nossos doutores, na verdade, aprimoram as técnicas de Schopenhauer ao envolver os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e André Mendonça, com o candidato à presidência Flávio Bolsonaro, num mesmo pacote de suspeitas. A ideia é incluir também parentes de outros ministros para obscurecer ainda mais o cenário. Tentar mostrar que todos são iguais na arte de se locupletarem, nivelando as distinções. Mas tentam nos forçar a concluir que punir a todos os envolvidos nas proporções devidas — o correto a fazer — seria algo tão traumático, tão trabalhoso, que o melhor seria não fazer nada.
O livro de Schopenhauer apresenta 38 “estratagemas” para se obter o objeto desejado – ganhar uma discussão de maneira não muito honesta intelectualmente. O estratagema 16, por exemplo, o “ad hominem”, é o que tem sido mais utilizado atualmente. O que significa? Que, em vez de dar as respostas devidas quando estiver em apuros, ataque seu oponente. Percebam que, no lugar de se defender, a ala ligada a Alexandre de Moraes utiliza-se do ardil de atacar o acusador, o ministro André Mendonça. Fizeram isso, anteriormente, ao desmoralizar os repórteres que trouxeram detalhes do imbróglio. Mas isso seria uma forma de tentar ganhar sem ter nenhuma razão.
Em vez de dar as respostas devidas, aliados do ministro Alexandre de Moraes atacam o oponente André Mendonça, seguindo um dos estratagemas de Schopenhauer 
Caso, em hipótese, André Mendonça tenha as piores intenções e aja a favor de adversários políticos de Moraes ou do governo, isso nada muda com relação aos fatos descobertos que incriminam Moraes. Flávio Bolsonaro, por outro lado, acusou de “apoiar o PT” um dos delatores da trama golpista que incriminou seu pai, de maneira a tentar desqualificá-lo. Ora, o delator pode ter apresentado fatos; não importa a sua ideologia (Carlos Baptista era um militar bolsonarista, aliás). Esse estratagema 16, na verdade, costuma ser bastante eficiente na política, em que o que interessa é vencer (as eleições), e não ter a verdade a seu lado.
Outra das armas retóricas apresentadas por Schopenhauer que tem sido claramente utilizada é o “estratagema 7”, que consiste em perguntar muitas coisas e em detalhes para ocultar aquilo que realmente se quer. Os ministros da ala de Moraes usam e abusam desse artifício. Querem, agora, mais e mais informações sobre o caso, alegando que não possuem dados suficientes para tirar suas conclusões. Usam o estratagema para adiar a sessão marcada para o dia 15 de setembro, que decidirá pela investigação contra Moraes. É uma estratégia que pode ser levada ao infinito para nada acontecer e ninguém ser punido.
Flávio Bolsonaro utilizou-se do estratagema 18 — sobre encerrar um tema e partir para outro — para sair ileso das acusações que abalam sua candidatura. Em seguidas entrevistas, quando questionado sobre o caso do filme Dark Horse e dos recursos que pediu a Vorcaro para, em tese, concluir a obra, dizia que o assunto estava encerrado, “tratava-se de recursos privados” e buscava “mudar de assunto”. A estratégia agora fica mais difícil quando se revelou que o candidato à presidência é investigado no caso. Mas ele pode buscar outros estratagemas para tentar se safar. Schopenhauer, entretanto, alerta, no “estratagema 34”, que, quando um oponente procura se desviar do que foi inquirido, quer dizer que seu ponto fraco foi atingido.
O “estratagema 24” também tem sido utilizado na geleia atual. Prega forçar consequências absurdas para evitar que se faça algo necessário. Por exemplo, para evitar punições, alegam que retirar um ministro da Corte seria uma “ameaça à democracia”, quando, na verdade, pode ser o contrário: a permanência de uma autoridade imaculada na Corte que prejudique as instituições.
O “estratagema 36” é incrivelmente comum no mundo do direito. Consiste em aturdir, causar confusão, com um vocabulário sem sentido, mas que soe bastante profundo ou técnico. Em resumo, se não estiver entendendo nada, é porque estão tentando te enrolar. Existe também o “estratagema 14”, que consiste em proclamar que sua tese é vitoriosa sem apresentar os argumentos que levem a tal conclusão.
Existem muitos livros sobre os pontos levantados por Schopenhauer. Mais “técnicas” foram descobertas. Recebem o nome desairoso de falácias e são bem exploradas nos livros de lógica informal. O texto do alemão, do século 19, soa até ingênuo quando deparamos com o que ocorre aqui no Brasil. Ele falava mais de técnicas de discussões entre intelectuais. No nosso caso, a utilizamos para acobertar crimes bilionários.